As Duas Vidas do Adepto

Uma questão muito importante e difícil na vida do adepto – o termo adepto, para melhor entendimento estamos nos referindo ao magista, estudante rosacruz, maçom, ocultista ou o que quer que você seja que busque a iluminação pelo caminho do conhecimento – é o fato dele ter duas vidas, uma pública e outra nos estudos. Para esta questão necessitamos de uma certa análise sobre estas duas vidas que dividem o adepto em suas escolhas e muitas vezes o deixa sem saber como agir em seu dia a dia.

A vida pública do adepto é aquela na qual este tem contato com suas atribuições sociais, onde ele executa suas atividades em seu emprego, tem sua vida familiar, seu convívio social com os outros de sua espécie, é o dia a dia, muitas vezes estafante e não incomumente enfadonho. Esta vida é chamada por algumas sendas de vida “profana”, pois é onde o sujeito do adepto é conhecido parcialmente e não são considerados seus “conhecimentos não ortodoxos”, a vida “profana” é onde este executará suas atividades “não sagradas”, é o dia a dia que vai testar a fibra moral do adepto com suas ordálias – testes de caráter e persistência – que tentarão tirar este de seu caminho no serviço de Deus, seja qual for o nome atribuído a este pelo indivíduo.

A “outra vida” do adepto é a do estudo, a execução da sua Verdadeira Vontade, onde este executará suas pesquisas sobre o mundo que o cerca e sobre si mesmo, perfazendo a jornada do conhecimento e progredindo na senda escolhida. Em sua vida privada este realizará os rituais que achar necessários para a criação ou manutenção do seu vínculo com seu Deus. É aqui em sua casa ou templo onde esses rituais e este estudo são realizados que o adepto vai realizar a sua Verdadeira Vontade, o Trabalho Divino da lapidação de seu potencial para melhor servir à Luz.

Essas duas vidas cumprem seu papel, uma de onde o indivíduo retirará seu alimento material e da outra o alimento espiritual, porém para muitos essa “divisão” não é muito clara e muitas vezes a vida mundana – profana – acaba por afogar a vida espiritual, fazendo a pessoa negligenciar suas obrigações como adepto. O cansaço, o stress, a falta de tempo, tudo isso são as chamadas ordálias, tentativas da vida profana de engolir a outra vida, mas por que isso ocorre? Por que é sempre a vida profana que tenta afogar as obrigações espirituais do adepto?

Isso ocorre por dois fatores principais. O primeiro e mais claro é o fato de que somos animais, consciências encarnadas assim temos necessidades bem mundanas, como constatou o psicólogo Abraham Maslow em sua obra “Motivação e Personalidade” (1954), um indivíduo que está morrendo de fome não terá preocupações em escrever uma grande obra, uma sinfonia ou uma obra prima da pintura, todas as suas forças estarão focadas em saciar sua necessidade, e também é assim com as necessidades espirituais, elas se manifestam quando as necessidades básicas estão saciadas e a primeira preocupação da consciência está na preservação do corpo para que possa continuar a exercer suas atividades, logo em uma “disputa” pelo seu tempo, seu emprego na maior parte das vezes ganhará das suas obrigações como adepto – o que pode não ser correto, mas é uma realidade.

O outro fator que na maior parte das vezes é o responsável pelas “disputas” que já elucidamos no parágrafo anterior, são as ordálias. O nome vem do anglo-saxão e tem uma tradução livre de “teste divino”, a ordália era utilizada em julgamentos medievais, onde não se conseguia determinar a culpa do réu e era imposto um teste no qual se este conseguisse superá-lo seria considerado inocente. As ordálias eram muito utilizadas em julgamentos da inquisição e tarefas impossíveis eram impostas, sendo que os acusados geralmente acabavam na fogueira. Em nosso paradigma, as ordálias são testes impostos pelo mundo para verificar a fibra moral do adepto, onde este é levada aos seus limites para que sua consciência desperta saiba seu grau de compromisso com a senda e com sua própria espiritualidade. Outro motivo da existência das ordálias é a reação do inconsciente coletivo ao comportamento “fora do padrão” que o adepto realiza, como uma máquina (olha a referência ao filme Matrix) que vê as ações do adepto em seus períodos de estudo e ritualística como uma “anomalia” ao padrão realizado pela maior parte da raça, combatendo como um anticorpo identificando e combatendo um vírus em nosso corpo, o inconsciente coletivo não julga, sendo assim não pode verificar se as ações são para o bem da população, combatendo qualquer ação que não se enquadre no esperado à raça humana (como animal).

Sendo assim, tendo essas duas vidas que não se encaixam, que são “incompatíveis” em uma primeira análise, muitos são os adeptos que encontram dificuldades (e ordálias) cada vez mais difíceis para realizar seu “Ofício” como magistas. Porém essa aparente dicotomia deve ser superada, ela nada mais é do que um percalço, dentre muitos, que o adepto encontrará e faz parte das suas atividades como um iniciado encontrar um meio de conciliar suas duas vidas. Na verdade essa diferença é apenas aparente e conforme o adepto progrida as dificuldades se tornam menores, quanto mais este se esforçar para que sua vida profana se adapte às necessidades espirituais, melhor serão suas atividades desenvolvidas em ambas. A moralidade e disciplinas da vida privada acaba por auxiliar em seu dia a dia profano, e em suas atividades mundanas o adepto acabará por descobrir que muitas delas são parte do ensino das sendas, na verdade hoje em dia as disciplinas antes “ocultistas” estão cada vez mais e mais populares nas profissões, principalmente no meio empresarial, na verdade esse texto serve apenas como um pequeno desafio para os leitores abrirem seus olhos e verem em seu próprio dia a dia mundano como as disciplinas “ocultistas” se aplicam.

Segue abaixo um pequeno exemplo retirado do livro “O Segredo de Luísa”, um livro sobre empreendedorismo pedagógico que tem por objetivo estimular o desenvolvimento de certas habilidades hoje consideradas vitais ao trabalhador e ao empresário – estimular habilidades, isso me lembra algo… – obra de Fernando Dolabela, professor de empreendedorismo que tem dedicado sua vida ao ensino desta e ao desenvolvimento das habilidades que ele considera “do empreendedor”. Mas que pelo que podemos constatar na sua descrição das habilidades como características do adepto que busca desenvolver sua Verdadeira Vontade:

O Sonho do Empreendedor

Costumamos definir o empreendedor como “alguém que sonha e busca transformar o sonho em realidade”. Nesse conceito, o sonho é visto como na linguagem do dia-a-dia: “Meu sonho é ser engenheiro… é casar… ter filhos… vencer na vida”. É o sonho que se sonha acordado Este conceito é simples, mas, na prática, encontra dificuldades, porque a nossa sociedade não nos estimula a sonhar. De fato, o sonho não faz parte da pedagogia das escolas, nem do lar, tampouco da rua.

A escola não pergunta sobre o sonho porque lida com conteúdos e sabe as respostas para eles. Além do mais, tem a intenção de exercer controle. Como para o sonho, não há respostas e nem ele se deixa controlar, não é tema escolar. A família como a de Luísa, prefere “convencer” a filha a seguir uma profissão que a dignifique. Socialmente, o sonho não é estimulado, porque sonhar é perigoso: comunidades que sonham constroem o seu futuro e não se deixam dominar.

Então, como funciona tal conceito? O indivíduo sonha, mas sonhar somente não define o empreendedor, conhecido também por sua capacidade de fazer. Ele deve buscar a realização do seu sonho. Ao agir para transformar seu sonho em realidade, o indivíduo é dominado por forte emoção, que libera a maior energia de que se tem notícia: a energia de quem busca transformar seu sonho em realidade. Empreender é, portanto, um ato de paixão. Ao se apaixonar, o indivíduo faz vir à tona o potencial empreendedor presente na espécie. E libera as características empreendedoras: a persistência, o conhecimento do ambiente do sonho, a

criatividade, o protagonismo, a liderança, a auto-estima, a crença em si mesmo, a crença em que seus atos podem gerar consequências.

É fácil perceber que a perseverança é um atributo de quem gosta muito do que faz. A liderança nasce da capacidade de convencer pessoas a nos apoiar e seguir. Só um apaixonado consegue se dedicar tanto a um sonho a ponto de conhecê-lo na sua integridade e assim adquirir a capacidade de seduzir pessoas para participar de sua realização. A criatividade está presente em quem se dedica com abandono a um tema, algo alcançável somente pelos apaixonados. Apenas o sonhador que busca a realização do seu sonho é protagonista e autor da sua vida.

É no exato momento em que o sonhador busca transformar seu sonho em realidade que nasce a necessidade de saber. Em outras palavras: somente quem sonha (ou consegue formular seus sonhos) precisa aprender algo. Ou seja, o indivíduo que está motivado para realizar seu sonho saberá desenvolver, segundo seu estilo pessoal, métodos para aprender o que for necessário para a criação, o desenvolvimento e a realização de seu sonho”.

Em contraparte o adepto também tem um Sonho e diariamente trabalha nele – sua Verdadeira Vontade – para torná-la real, para tornar o paradigma atual mais sutil e nosso ideal mais concreto, nisso se baseia nossa vida cerimonial seja em casa (em seu tempo pessoal) ou em grandes templos ou igrejas. Que nossas vidas e sonhos não sejam dominados pelo inconsciente coletivo. Estamos conseguindo tornar essa realidade mais fluída, um passo de cada vez, não abra mão de sua vida na senda nem imponha barreiras entre essas duas vidas, pois com o aprendizado e a ritualística aos poucos essas barreiras caem por terra e nossas duas vidas podem caminhar juntas.

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3 respostas para As Duas Vidas do Adepto

  1. Thiago disse:

    Muito bom! valeu.

  2. Estava pesquisando o nome de minha mãe ” ORDÁLIA ” , e eis que me deparo com este texto, e que me abriu a mente de uma tal forma …inexplicável , eu sou um sonhador que busca um caminho em ser empreendedor , quem sabe não é isso que precisava ler para levar adiante meus sonhos e não participar do inconsciente coletivo , que sempre me diz que tenho ficar onde estou, no mesmo trabalho , na mesma cidade…enfim Quero agora dar os primeiros passos em outra direção ….a do meu sonho

  3. Parabéns ,excelente texto.

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